domingo, março 26, 2006

Escrever é um dom, um ofício, um prazer? O que é escrever pra você?


A definição da palavra escrever pelo dicionário Houaiss afirma: escrever lat. scríbo,is,psi,ptum,ère 'marcar com o estilo (ponteiro ou haste de metal), traçar uma linha, marcar, assinalar, gravar, marcar com cunho, desenhar, representar em caracteres.

A palavra vem do latim scribo e, sendo um verbo, indica a ação de marcar com o estilo, ponteiro ou haste de metal, a inscrição em caracteres que vamos deixando sobre o papel e que traduz nosso pensamento em palavras. A palavra estilo está portanto associada ao objeto pontudo que permitia a inscrição das palavras pelos antigos sobre tábuas de cera. Dando um pulo no tempo nos damos conta que a palavra estilo, associada ao ato de escrever, remete ainda ao modo pelo qual os indivíduos usam as palavras para se expressar.

Portanto a primeira coisa a sublinhar é que, para além da troca de informações que nos permitem as palavras, e que se referem ao domínio da comunição, o ato de escrever se refere também a forma de expressão do sujeito. E é essa dimensão da escrita que queremos principalmente explorar.

Para isto vamos trabalhar alguns filmes que exploram essa dimensão da escrita, começando com Encontrando Forrester, filme de Gus Van Sant que discutiremos no próximo sábado a partir das 14h. Até lá aguardo o exercício que combinamos da produção de um texto, sem limite de genero ou formato, tendo como temas os ítens abaixo assinalados:

1. A escrita como patrimônio / legado da humanidade.

2. A escrita como legado pessoal.

3. A escrita como desafio/ conquista pessoal.

4. O prazer da escrita.


O texto deve ter entre 30 a 40 linhas, sem esquecer do título e, deve ser postado no setor reservado aos comentários desta postagem com pseudônimo escolhido pelo aluno. Vocês devem escolher um dos temas e mãos à obra... A postagem deverá ser feita até quarta-feira à noite, para haver tempo de leitura.

As informações que seguem abaixo sobre Encontrando Forrester (ficha técnica com uma pequena sinopse do filme) são para nosso trabalho posterior no sábado, dia 01/04.Encontrando Forrester
Diretor(es): GUS VAN SANT Ator(es): SEAN CONNERY , ROB BROWN , F. MURRAY ABRAHAM , ANNA PAQUIN , BUSTA RHYMES , APRIL GRACE , MATT DAMON Roteirista: MIKE RICH
Sinopse:O Vencedor do Oscar Sean Connery(Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por "Os Intocáveis") estrela este poderoso e inesquecível drama do aclamado diretor Gus Van Sant(Gênio Indomável, Um Sonho Sem Limites). Com um elenco grandioso, incluindo os vencedores do Oscar F. Murray Abraham(Melhor Ator Coadjuvante por "Amadeus") e Anna Paquin(Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Piano"), o filme também apresenta o super-astro da música rap Busta Rhymes(Shaft) e uma incrível atuação do talentoso estreante Rob Brown. Jamal Wallace(Brown) é um talentoso jogador de basquete de 16 anos em Nova York cuja paixão secreta é escrever. William Forrester(Connery) é um recluso romancista vencedor do prêmio Pulitzer que nunca deu ao mundo um segundo livro. Depois de um encontro acidental, Forrester se torna o mentor inesperado de Jamal, guiando-o para que desenvolva suas excepcionais habilidades. Breve, a dura visão do mundo de Forrester começa a mudar à medida que os dois começam a trocar experiências sobre a vida - e a importância da amizade. "Um dos melhores filmes do ano!". "Sean Connery em uma atuação para coroar sua carreira. O estreante Rob Brown impressiona. Uma bela e comovente história." - Richard Roeper, Ebert & Roeper and The Movies. "Divertido e emocionante. Um triunfo de Connery." - Peter Travers, Rolling Stone


2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Caligraficamente indefinível

Escrevo ousadamente... nada tão fácil... A minha dificuldade vem de mais profundo, vem do conteúdo, vem de dentro. Tento escrever-me e deixar-me escrita. Deixar-me inscrita neste mundo. Escrevo-me para tentar achar-me, para não me esquecer. Mas sei que sou incapaz... sei que tenho uma vaziez fibrosa que me impede de ser inteira. Uma vaziez que me anula.
Ainda não fiz a minha inscrição na vida. Ainda me falta a assinatura. Mas continuo escrevendo sem caligrafia definida, sem constância. Continuo ousando. Quero o meu legado. Me quero acima de tudo. Quero encher-me de mim, de meus pensamentos, de minhas palavras, de meus suores. E sei que a arte é a minha salvação e meu caminho. Sempre a escrita me acompanhou. No início como desabafo, agora com uma discreta preocupação artística. Quem sabe?

De alguma forma, sinto que preciso da palavra. Preciso torná-la minha propriedade. Apossar-me de seu significado e de sua beleza. Preciso respeitá-la. Por vezes, o silêncio impera, me domina e, sem fala, fico. Reflexo do vazio. A minha sutil pronúncia se dá pela escrita neste momento. Desconectada escrevo. Desajustada alinho. Angustiada transcrevo. Procuro palavras que me expressem.

Preciso tornar firme, precisa e forte a minha escrita. Preciso deixar com que me invada. E assim abra o caminho. Desbrave. Por onde passar quero ficar porosa para que as letras saiam e entrem descompromissadamente e formem palavras ao natural. Processo de construção. Espaço de criação. Por entre as linhas criem imagens, dúvidas, sensações... enfim, por entre as linhas o descompromisso tome forma, se esculture e vire texto. E me preencha. E me contextue. E me dê diversas estátuas de mim como esculturas sólidas de mármore..., bronze..., barro. Eu, escultora e escultura.

A escultora.

março 29, 2006 4:45 PM  
Anonymous Anônimo said...

O Único Prazer

Rosa Maria espera impacientemente o início do novo dia. Sempre receia o começo de uma nova semana. Segunda-feira tem um peso insuportável, quase sufocante. Olha o relógio e constata que falta pouco para o que sente como o fim. Deixa em uma cômoda, sua carta de despedida, um triunfo só seu, e fecha a porta. Não se sentia mal por estar perto do fim. No seu cotidiano qualquer escrita, mesmo uma carta de despedida dissipava suas angustias.

Seu prazer de escrever ninguém nunca conseguiu lhe tolher. Sempre se questionava: todos teriam tal satisfação? Polida deixava suas inquietações para si. O certo é que mesmo a maioria dos suicidas convictos gostava de deixar sua última escrita, uma gota de dor, satisfação ou prazer masoquista.

Desde pequena, quando ainda havia possibilidade de ter o dinheiro do ônibus para ir a sua escola, os seus primeiros rabiscos já enunciavam a sua cumplicidade eterna com as letras. Naqueles momentos, pensava em uma cantiga de uma rede televisiva e acreditava de forma veemente que: “... Nesses nossos dias, nossas alegrias serão de todos é só querer, todos os nossos sonhos serão verdade...”. Um dia seria uma grande escritora.

Não queria pensar neste último momento em seus dias de infortúnio. Regra em sua vida de miserável. Não escreveu qualquer justificativa para seu ato quase insano. Só relatou o sabor que tinha em deixar seus sentimentos, por tantos tolhidos, transformarem-se em poemas, narrativas. Era a sua Catarse. Mais que isso era seu legado pessoal, que tanto se orgulhava. Quando já estava sem forças para enfrentar a fome, as contínuas discussões dos pais, o medo do irmão com seus delírios eróticos, buscava um papel e caneta, passava enfim para o prazer da escrita. De repente, mesmo por instantes, se sentia especial, capaz de se dar um prazer único. Era, só então, gente.

Enfim chegou uma da madrugada e passo a passo se dirigia para as ruas mais sombrias. Tirou um longo blusão e já quase nua inicia uma nova vida. Não retornará a ver seus pais e se lançará ao mundo real dos amores e sexos brutos por um trocado. Será o final da vida? O início da morte? Nem um nem outro, a escrita sempre a liberta e mesmo em um rascunho deixado em um motel após um dia de trabalho, ela sempre será livre com seu único prazer: a escrita.

março 29, 2006 5:08 PM  

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